Paulo Roberto Gomes Fernandes destaca que em um período marcado por forte desamparo institucional, especialmente por parte das entidades responsáveis pela organização do futebol nacional, o patrocínio da empresa de engenharia Liderroll acabou sendo determinante para que atletas de alto nível continuassem treinando e competindo.
À época, o cenário era preocupante. Um dos clubes mais tradicionais do país decidiu encerrar suas atividades no futebol feminino, deixando sem equipe um grupo que reunia nove jogadoras da seleção brasileira. A decisão evidenciava uma realidade já conhecida naquele momento: o futebol feminino sobrevivia quase exclusivamente de iniciativas privadas, com pouco ou nenhum apoio estrutural das instâncias oficiais do esporte.
A criação do time Liderroll–COTP
Diante desse contexto, a Liderroll optou por direcionar seu apoio ao Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisas (COTP), em São Paulo. A partir dessa parceria, foi formado o time Liderroll–COTP, que absorveu as atletas dispensadas e garantiu a continuidade de sua preparação esportiva. A equipe passou, inclusive, a disputar competições oficiais ainda em 2012, como a Copa do Brasil de Futebol Feminino.
Paulo Roberto Gomes Fernandes expõe que o gesto não tinha relação direta com retorno de marca ou exposição comercial. Tratava-se de uma empresa cujos produtos e serviços são voltados ao setor industrial, sem vínculo com o mercado de consumo. Ainda assim, a decisão foi tomada por uma leitura mais ampla do papel social que uma organização privada poderia exercer em um momento de fragilidade do esporte olímpico.
Uma estreia simbólica e os desafios estruturais
A estreia do time ocorreu no Rio de Janeiro, contra o Duque de Caxias, então campeão da Copa do Brasil feminina. O resultado esportivo foi expressivo, com vitória por 4 a 0, mas o episódio também expôs problemas estruturais recorrentes. A partida começou com mais de 40 minutos de atraso devido à ausência de policiamento, situação que afetou atletas e arbitragem e simbolizou o descaso enfrentado pela modalidade naquele período.

Paulo Roberto Gomes Fernandes frisa que, mesmo diante dessas dificuldades, o nível técnico apresentado pelas jogadoras reforçou a convicção de que o futebol feminino brasileiro possuía talento e potencial, mas carecia de organização, investimento e visibilidade compatíveis com sua relevância esportiva.
Uma decisão de caráter institucional e ideológico
Ao comentar o patrocínio naquele momento, Paulo Roberto Gomes Fernandes destacou que a iniciativa não se baseava em expectativas financeiras. O apoio tinha caráter essencialmente institucional e ideológico, sustentado pela compreensão de que modalidades olímpicas não poderiam ficar reféns da ausência de políticas estruturadas por parte das entidades responsáveis.
Naquele contexto, a comparação com o desenvolvimento do vôlei brasileiro era recorrente. Modalidade que, anos antes, também enfrentava limitações, mas que se transformou em potência internacional após investimentos contínuos e organização adequada. A leitura era clara: sem suporte consistente, mesmo esportes com grande potencial ficam estagnados.
Um episódio revelador do cenário da época
Visto a partir de 2026, o patrocínio da Liderroll ao futebol feminino em 2012 se insere como um episódio emblemático de um período em que o esporte ainda buscava reconhecimento, profissionalização e respeito institucional no Brasil. A presença de atletas consagradas, já integrantes da seleção nacional, contrastava com a precariedade das condições oferecidas.
Paulo Roberto Gomes Fernandes nota que a iniciativa não resolveu estruturalmente os problemas do futebol feminino brasileiro, mas garantiu, naquele momento específico, que a base da seleção olímpica não fosse desmobilizada. Em um cenário de abandono quase total, o apoio privado acabou funcionando como uma verdadeira ponte de sobrevivência esportiva, permitindo que aquelas atletas seguissem competindo, treinando e representando o país internacionalmente.
Autor: Günther Ner
