Segundo o doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, em um contexto marcado pelo envelhecimento acelerado da população brasileira e pela crescente prevalência de doenças crônicas entre os idosos, compreender os fundamentos éticos e clínicos dessa área tornou-se uma necessidade tanto para profissionais de saúde quanto para famílias.
Vamos entender, ao longo deste texto, como os cuidados paliativos se aplicam à população idosa, e por que essa abordagem representa muito mais do que o manejo de sintomas no fim da vida.
O que são os cuidados paliativos e para quem se destinam?
Há um equívoco frequente sobre o significado de cuidados paliativos: muitos os associam exclusivamente à fase terminal de uma doença, como se representassem uma espécie de desistência terapêutica. A definição adotada pela Organização Mundial da Saúde é mais ampla e mais precisa. Trata-se de uma abordagem que melhora a qualidade de vida de pacientes e familiares diante de doenças que ameaçam a continuidade da vida, por meio da prevenção e do alívio do sofrimento físico, psicológico, social e espiritual.
Na população idosa, a aplicabilidade é especialmente relevante. O perfil típico do paciente geriátrico em cuidados paliativos envolve multimorbidade, fragilidade progressiva e múltiplos medicamentos em uso simultâneo. Condições como insuficiência cardíaca avançada, doença pulmonar obstrutiva crônica, demências em estágio grave e câncer são as mais frequentes nesse cenário. Em todos esses casos, a paliação não exclui o tratamento, ela o reorienta, colocando o bem-estar e a vontade do paciente no centro das decisões.
Autonomia do idoso: um direito que precisa ser preservado
Um dos aspectos mais sensíveis dos cuidados paliativos em geriatria é a questão da autonomia. Existe uma tendência, tanto entre profissionais de saúde quanto entre familiares, de subestimar a capacidade decisória do idoso. A presença de doenças crônicas ou mesmo o diagnóstico de demência em estágios iniciais frequentemente são usados, de forma equivocada, para justificar a exclusão do paciente do processo de tomada de decisão sobre seu próprio cuidado.
A bioética contemporânea aponta em direção oposta. O princípio da autonomia relacional reconhece que as escolhas do indivíduo são construídas dentro de um contexto de relações familiares, culturais e comunitárias. Nesse quesito, respeitar a autonomia do idoso significa, portanto, não apenas perguntar o que ele quer, mas criar condições reais para que ele possa expressar e exercer essa vontade. Diretivas antecipadas, conversas abertas sobre preferências de fim de vida e o envolvimento ativo do paciente em seu plano terapêutico são instrumentos concretos nesse sentido.
Conforme observa Yuri Silva Portela, o cuidado que ignora a perspectiva do próprio paciente tende a gerar intervenções desnecessárias, sofrimento evitável e uma sensação de invisibilidade que compromete profundamente a dignidade na fase final da vida.

Interdisciplinaridade, sofrimento e a complexidade do cuidar
Nenhum profissional isolado é capaz de responder, sozinho, à complexidade do sofrimento de um idoso em cuidados paliativos. O controle da dor exige o médico; o suporte emocional, o psicólogo; a adaptação funcional, o fisioterapeuta; a orientação nutricional, o nutricionista. Cada dimensão do sofrimento demanda uma competência específica, e é a articulação entre essas competências que define a qualidade do cuidado paliativo.
Sob a perspectiva do doutor Yuri Silva Portela, a integração multiprofissional não é um recurso complementar, é a condição básica para que o cuidado paliativo cumpra sua função de preservar dignidade e reduzir sofrimento de forma efetiva. Essa lógica orienta também iniciativas como o Humaniza Sertão, que leva atendimento multidisciplinar a comunidades de difícil acesso no Sertão de Quixadá, onde populações vulneráveis, entre elas, muitos idosos, historicamente ficaram à margem de qualquer forma de atenção especializada.
Vale considerar ainda que o sofrimento na terceira idade não se limita à dor física. A literatura gerontológica descreve um processo de perdas sucessivas: de papéis sociais, de vínculos afetivos, de mobilidade e de independência. Os cuidados paliativos abordam essa dimensão com seriedade, reconhecendo que a escuta qualificada e o suporte psicológico sistemático não são periféricos ao plano terapêutico, são parte constituinte dele.
Início precoce e o cuidado de quem cuida
A evidência clínica aponta para uma conclusão que ainda encontra resistência na prática: os cuidados paliativos são mais efetivos quando iniciados precocemente, logo após o diagnóstico de uma condição crônica grave, e não apenas quando todas as opções curativas se esgotaram. No contexto geriátrico, em que a trajetória da doença frequentemente é longa, o início precoce da paliação representa uma diferença concreta na qualidade de vida ao longo de meses ou anos.
Tal como pondera Yuri Silva Portela, esperar o momento de “não haver mais nada a fazer” para introduzir o cuidado paliativo é, em si, uma forma de abandono terapêutico. A sobrecarga dos cuidadores familiares, marcada geralmente por sintomas de ansiedade, depressão e burnout, é parte desse mesmo problema. Uma equipe paliativa que inclui o cuidador no escopo de sua atenção melhora o bem-estar familiar e, indiretamente, a qualidade do cuidado prestado ao próprio paciente.
Por fim, conforme elucida o doutor com pós-graduação em geriatria, Yuri Silva Portela, reconhecer o cuidador como sujeito de cuidado, e não apenas como executor de tarefas, é um dos avanços mais importantes que a medicina paliativa pode oferecer às famílias brasileiras que enfrentam o envelhecimento de seus entes queridos sem o suporte institucional adequado.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
