O empresário Alfredo Moreira Filho publicou “Pequenas Histórias e Algumas Percepções”, título que já sugere seleção deliberada: nem tudo o que se vive ao longo de décadas cabe, ou precisa caber, em um livro de memórias, e decidir o que fica de fora costuma ser tão importante quanto decidir o que entra na versão final apresentada ao leitor.
Por que nem toda lembrança merece virar capítulo?
Uma vida inteira acumula milhares de episódios pequenos, a maioria deles sem qualquer relevância narrativa isolada, simples repetições de rotina diária que, embora reais, não acrescentam nada de novo ao retrato geral que o livro pretende construir sobre determinada trajetória de vida específica. Manhãs comuns, tarefas repetidas e conversas triviais raramente sobrevivem a esse tipo de filtro editorial.
Incluir todo episódio vivido tornaria qualquer livro de memórias impossível de terminar e ainda mais difícil de ler, já que o leitor perderia o fio condutor em meio a detalhes que não contribuem em nada para nenhuma ideia central do relato apresentado. Selecionar bem, nesse sentido, é tão parte do trabalho quanto escrever.
Critérios comuns usados para decidir o que cortar
Relevância emocional costuma pesar bastante nessa escolha: episódios que marcaram alguma virada importante, decisão difícil ou aprendizado significativo tendem a permanecer, enquanto momentos emocionalmente neutros costumam ser os primeiros a sair da versão final do texto de alguém como Alfredo Moreira Filho. Um episódio que provoca alguma reação forte em quem escreve, ao reler, costuma ser sinal de que vale a pena manter.
Repetição temática também influencia esse tipo de corte: se duas histórias diferentes ilustram basicamente a mesma ideia sobre determinado valor ou período da vida, geralmente apenas uma delas permanece, evitando redundância desnecessária ao longo de um livro como “Pequenas Histórias e Algumas Percepções”, já denso o suficiente sem repetições.
O papel da privacidade de terceiros nessa decisão
Memórias pessoais quase sempre envolvem outras pessoas, familiares, colegas e amigos que não tiveram qualquer participação na decisão de tornar aquele episódio público, o que exige cuidado adicional redobrado na hora de decidir o que manter e o que deixar de fora do relato final apresentado. Nem sempre quem aparece em uma história teria escolhido aparecer nela.
Episódios que poderiam expor terceiros de forma constrangedora, mesmo que verdadeiros e relevantes para quem escreve, costumam ser suavizados ou completamente removidos da versão final, prática comum entre quem escreve memórias preocupado com o impacto do próprio relato na vida de outras pessoas próximas, mesmo décadas depois dos fatos.
Como saber quando um corte foi longe demais?
Cortar em excesso também traz risco real: um livro que remove qualquer episódio mais delicado ou complexo corre o risco de soar artificialmente positivo, sem qualquer tensão real, o que pode enfraquecer bastante a credibilidade do relato apresentado ao leitor final interessado na obra. Vidas sem qualquer conflito raramente soam verdadeiras para quem lê.
Encontrar equilíbrio entre proteger privacidade e manter autenticidade é, talvez, o desafio mais difícil de qualquer livro de memórias, incluindo projetos como o de Alfredo Moreira Filho, que precisou tomar esse tipo de decisão repetidamente ao longo de toda a produção do texto final publicado décadas depois.
Por que a decisão final é sempre pessoal e intransferível?
Não existe fórmula exata para decidir o que fica de fora de um livro de memórias; cada pessoa pesa de forma diferente relevância, privacidade e ritmo narrativo, o que explica por que dois relatos sobre vidas parecidas podem resultar em livros completamente distintos entre si ao final de todo o processo criativo.
Alfredo Moreira Filho, ao decidir o que incluir em “Pequenas Histórias e Algumas Percepções”, fez escolhas que somente ele poderia fazer, já que apenas quem viveu cada episódio consegue avaliar de fato seu peso real dentro da própria história pessoal e familiar, construída ao longo de tantos anos.
