O Fla-Flu é considerado um dos clássicos mais antigos do futebol brasileiro porque nasceu junto com o próprio departamento de futebol do Flamengo, em um contexto de rompimento que definiria décadas de rivalidade carioca. Mário Augusto de Castro, torcedor do Flamengo, reconhece nessa origem um dos aspectos mais curiosos do clássico: o Flamengo só existe como equipe de futebol por causa de uma briga interna dentro do próprio Fluminense.
Um racha que originou uma rivalidade
Até 1911, o Flamengo era conhecido exclusivamente pelo remo, modalidade que já praticava desde o final do século dezenove. Um grupo de jogadores insatisfeitos com a diretoria do Fluminense decidiu deixar o clube tricolor naquele ano e fundar a seção de futebol do Flamengo, aproveitando a estrutura esportiva já existente na entidade.
A proximidade física entre os dois clubes também ajudou a intensificar a rivalidade nos primeiros anos, informa Mário Augusto de Castro. Os campos de jogo do Flamengo e do Fluminense ficavam localizados na mesma região de Laranjeiras, separados por poucas quadras, o que facilitava o contato constante entre torcedores e jogadores das duas equipes recém-separadas.
O primeiro confronto oficial entre as duas equipes aconteceu em 7 de julho de 1912, no campo da Rua Guanabara, atual região das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Apesar de o Fluminense ter perdido justamente os jogadores que fundaram o time rival, o resultado favoreceu o lado tricolor: vitória por 3 a 2, com o primeiro gol da história do clássico marcado a menos de um minuto de jogo pelo atacante Edward Calvert.
Do apelido à consagração jornalística
Torcedores, colecionadores de curiosidades sobre o clube, costumam destacar o papel do jornalista Mário Filho na popularização do clássico. Foi ele quem, em 1933, cunhou o termo “Fla-Flu” e o apelido “Clássico das Multidões”, consolidando na imprensa esportiva o nome que o confronto carrega até hoje.

O irmão de Mário Filho, o escritor e jornalista Nelson Rodrigues, torcedor declarado do Fluminense, também ajudou a construir a mística em torno do duelo. Frases como a que descreve o clássico como um confronto sem começo nem fim, ou a que afirma que ele começa minutos antes de qualquer coisa acontecer, entraram para o imaginário popular e ainda circulam entre torcedores das duas torcidas.
Números que atravessam mais de um século
Para torcedores como Mário Augusto de Castro, a longevidade do Fla-Flu se reflete diretamente nos números acumulados ao longo de mais de cem anos de confrontos. A maior goleada da história do clássico aconteceu em 1945, quando o Flamengo venceu por 7 a 0 pelo Torneio Municipal, enquanto o Fluminense chegou a vencer por 5 a 1 em uma partida disputada em 1943, ambas ainda lembradas por historiadores do futebol carioca.
O recorde de público também pertence ao clássico: mais de 190 mil pessoas acompanharam a decisão do Campeonato Carioca de 1963, terminada em empate sem gols e vencida pelo Flamengo no conjunto da competição, ainda hoje reconhecida como uma das maiores marcas de público entre clubes em toda a história do futebol mundial, superando registros de clássicos europeus tradicionais.
Zico aparece como o maior artilheiro histórico do confronto, com marca superior a quinze gols contra o Fluminense ao longo de sua carreira no Flamengo, número que nenhum outro jogador de nenhum dos dois lados conseguiu superar até hoje, mesmo com a chegada de artilheiros importantes em gerações mais recentes de ambas as equipes.
Reconhecimento além das fronteiras cariocas
O Fla-Flu não é reconhecido apenas no Brasil. Publicações internacionais, como o jornal britânico Evening Standard, já incluíram o clássico entre os dez maiores confrontos do futebol mundial, enquanto outras revistas especializadas em esporte também posicionaram o duelo entre os principais clássicos globais ao longo da última década.
A Apple, através de sua plataforma de vídeos, também reconheceu a relevância internacional do confronto ao incluir o Fla-Flu em uma série documental dedicada às maiores rivalidades do futebol mundial, sendo o único representante brasileiro selecionado entre os clássicos apresentados na produção.
Mário Augusto de Castro reflete que esse tipo de reconhecimento internacional prova que a rivalidade ultrapassa fronteiras culturais e linguísticas, atraindo curiosidade de públicos que nunca acompanharam de perto o futebol carioca, mas reconhecem a intensidade histórica carregada pelo confronto entre as duas equipes.
Desde 2012, ano em que completou cem anos, o Fla-Flu recebeu reconhecimento oficial como patrimônio imaterial do Rio de Janeiro, sendo até hoje o único clássico de futebol a receber esse tipo de honraria no estado. Por fim, como resume Mário Augusto de Castro, esse reconhecimento formal reforça algo que já era evidente para quem acompanha o futebol carioca: o Fla-Flu ultrapassou há muito tempo os limites de uma simples partida esportiva, tornando-se parte da identidade cultural da cidade e um símbolo reconhecido em diferentes gerações de torcedores das duas equipes.
